Sunday, September 13, 2009

Inglourious Basterds


Desta vez Tarantino escolheu um momento histórico (a queda do regime nazi, personificado nas figuras de Hitler e Goebbels), para aplicar a sua forma muito própria e altamente eficaz de fazer cinema.

A fórmula é a de sempre: uma vingança mais ou menos planeada (neste filme menos planeada); personagens frios, decididos e brutais; a mulher bela e loura que é a chave de todo o enredo e que aplica o golpe mortal, acabando com o adversário definitivamente de uma forma exuberante e dramática.

Menciono o adversário e não o mau da fita porque aqui é disso que se trata. Apesar de historicamente os nazis serem os maus da fita, nesta fita eles não são especialmente maus. São os adversários dos judeus, judeus esses que por sua vez, vão exercer sobre eles a sua vingança. Ela será levada a cabo pelas mãos dos “Basterds” liderados por Brad Pitt coadjuvado por uma jovem judia que viu a família ser dizimada por nazis e que, por um acaso da vida, teve a oportunidade de se vingar.

Nesta obra, que já tinha sido pensada antes de “Kill Bill”, nada parece ter sido deixado ao acaso, desde a magnífica banda sonora, ao ambiente criado pela produção, ao guião (escrito com um tom de humor muito especial), e às personagens extremamente carismáticas vividas pelos actores certos.
No entanto, há que destacar o papel crucial dos diálogos extremamente envolventes e dotados de um magnífico sentido de humor que conduziram todo o filme.
Brad Pitt foi uma escolha acertada, provou mais uma vez ser um dos melhores actores da sua geração com o engraçadíssimo Aldo Reine.

O coronel Hans Landa é outra personagem inesquecível interpretada brilhantemente por Christopher Waltz que deu à sua personagem a intensidade perturbadora de um homem muito inteligente e hábil a lidar (e a incutir) um verdadeiro terror psicológico apenas com o olhar e palavras, metódico, maníaco e finalmente, corruptível.

A única coisa que me chateou foi encontrar novamente o actor hispano-alemão Daniel Brühl. Parece que ele está em todas… Não há filme que veja, onde a Alemanha seja mencionada, em que ele não surja. Não é pessoal mas dou por mim a questionar-me se não existirá mais nenhum rapaz jovem na indústria do cinema alemão, porque ele não é assim tão bom actor para ser sempre a única escolha.

Um apontamento para a fatiota fashion de Hitler: um meio casaco branco de senhora preso à farda com uma corrente, encaixou bem no carácter ridículo e doentio com que Tarantino o representou.

Friday, April 10, 2009

Harvey Milk


“Eu só peço isto:
Se me assassinarem.
Peço uma mobilização
de cinco, dez, cem, mil pessoas.
E se uma bala entrar
no meu cérebro
que destrua cada
porta fechada.
Peço que continuem
com o movimento.
Porque não se trata
de um jogo pessoal.
Não se trata de poder.
Trata-se sim, daqueles como nós
espalhados pelo mundo.
Não apenas os gays.
Mas os negros, os asiáticos,
os idosos, os deficientes. 'Nós'.
Sem esperança,
'nós' desistimos.
Eu sei que não podemos ter
esperança quando estamos sozinhos,
mas sem esperança,
não vale a pena viver.
Por isso, você...
e você, e você.
Têm que os fazer acreditar.
Têm que os fazer acreditar.”


“Mais de 30 mil pessoas fizeram uma
marcha desde o Castro até à Câmara
para homenagear
o Supervisor Harvey Milk”.

Wednesday, March 18, 2009

"Velvet Goldmine"


Mais do que uma história, Velvet Goldmine é uma viagem alucinante pelo ambiente musical do chamado “Glam Rock” vivido em Londres no início dos anos 70. Nesta época, como não podia deixar de ser, a revolução musical estava intimamente ligada a uma revolução na cultura e nos valores vigentes.

Depois dos anos 60, dos Hippies e das flores, surge a liberdade sexual e a liberdade provocante de exibir comportamentos e estilos de vestir e de estar de uma grande ambiguidade sexual. Os grandes ídolos do pop rock passaram a pintar-se, a usar botas de salto alto, muita purpurina e lantejoulas, tudo o mais brilhante e colorido possível de forma a passar uma imagem andrógina e exuberante ao mesmo tempo. A música acompanhava o novo estilo, com letras provocantes e exibições em palco que deitavam abaixo qualquer regra moral.

Nesta obra, as personagens são ficcionais, prevalecendo apenas as músicas, verdadeiros ícones do Glam Rock, tocadas em versões de diversos artistas actuais como alguns elementos dos Radiohead e outros ligados a bandas da época como os “Roxy Music”. No entanto, os personagens Brian Slade e Curt Wilde, magnificamente interpretados por Jonathan Rhys-Meyers e Ewan McGregor são indubitavelmente inspirados nas performances de David Bowie e Iggy Pop nos anos 70. Desta forma, o imaginário e poder criativo do realizador juntou-se à realidade musical do pop-rock e pós-punk da época dando origem a este filme delicioso.

A estrutura do enredo foi criada de uma forma bastante hábil e relativamente simples: começa com o nascimento de Orson Wells e um broche verde que surge no cobertor do bebé e vai acompanhando toda a história e vários personagens como o símbolo do acto de sonhar (e, segundo Curt Wilde da imagem e do estilo).
A figura através da qual o nascer e desmoronar de uma estrela de rock é contada, é um jovem fã de Glam Rock, Arthur, que se torna jornalista e, 10 anos depois da saída de cena de Brian Slade (após simular o seu próprio assassinato em palco) é encarregue de fazer uma reportagem sobre o paradeiro da velha estrela.
Arthur, irrepreensivelmente interpretado por Christian Bale, desfia a história do Glam Rock na pessoa de Brian Slade, enquanto inevitavelmente é confrontado com o seu próprio passado, onde se cruza com as personagens da sua própria história. Arthur revê uma adolescência onde descobriu uma homossexualidade num ambiente de revolta e incompreensão por parte dos pais mas também num ambiente de sonho embriagante, alimentado pela admiração que sentia pelos artistas da época e a sua vida repleta de mistério e glamour.

Não poderia destacar uma só cena deste filme, pois são todas bastante interessantes e cada uma tem a sua beleza muito própria, mas destaco a excelente banda sonora e figurino. Não posso deixar de sublinhar mais uma vez as excelentes interpretações de Ewan McGregor, Jonathan Rhys-Meyers, e também de Toni Collette e Christian Bale e a forma sensível e verdadeiramente artística como o autor desenvolveu a relação dos 4 personagens interpretados por eles.

Devo confessar que quando percebi que Brian Slade ia ser interpretado por Jonathan Rhys-Meyers (que estou habituada a ver como o másculo Henry VIII na série “Os Tudors”) achei que não ia resultar mas, a forma como ele vestiu aquele personagem, a ingenuidade que lhe imprimiu nos primeiros tempos e a forma como ele e Ewan McGregor vivenciaram o seu romance foi simplesmente comovente…

Sou profundamente suspeita pelo apego que tenho ao estilo de música que constitui a banda sonora do filme mas, este é, sem dúvida, um musical muito bem conseguido. As músicas encaixam como uma pele em cada cena e embalam o filme como um sonho pleno de cenários brilhantes, misteriosos e irresistíveis.

Monday, March 16, 2009

Rachel Getting Married


Rodado como uma produção caseira, “Rachel Getting Married” é a reportagem de um casamento e a radiografia de uma família de “gente normal” que passou por um momento difícil no passado.
A figura central do filme (o ângulo através do qual vemos este casamento e conhecemos esta família) é a irmã mais nova da noiva que sai de uma clinica para assistir a este casamento. Trata-se de uma rapariga com problemas de drogas que não se consegue perdoar pela morte do irmão (a seu cargo quando morreu de acidente num automóvel que ela conduzia sob o efeito de drogas).
Rachel é a noiva, é também a irmã mais velha que viu toda a atenção ser sempre dispensada à irmã problemática. Rachel é a "quase doutorada em psicologia" que compete em atenção com a irmã mais nova usando os truques mais básicos e infantis.
Temos, nesta obra, uma miscelânea de pessoas reais, imperfeitas, que buscam o seu lugar no mundo sem tentarem com muita convicção serem o que não são.
O mundo interior versus mundo que tentamos exteriorizar. A luta constante entre o que somos, o que queremos ser, o que julgamos que queremos ser e o que queremos que os outros pensem que somos.
A procura da felicidade e do bem-estar consciente num mundo complexo, cheio de seres que lutam com os seus próprios conflitos e mostram algo que está longe da verdade que guardam para eles próprios.
O relacionamento de duas irmãs e de uma mãe com uma filha que, sendo próximas pelos mais chegados laços sanguíneos não deixam de ser dois seres humanos completamente independentes na sua existência e luta pelo lugar no mundo.
Um filme que mostra a pessoa sem eufemismos e retoques de produção: o ser real com as suas dúvidas, defeitos e fragilidades, com os seus cinismos e incongruências.
O ser que quer estar nos centro das atenções, o ser que reflecte a opinião do próximo, que precisa de ser aceite para se aceitar a si mesmo, nem que para isso tenha que desafiar tudo e todos e testar os seus próprios limites.
Tudo isto se passa no casamento de uma rapariga branca comum com um rapaz negro comum, dois amantes de música alternativa, que misturam diferentes contextos culturais num casamento indiano povoado de convidados de todas as etnias. Um casamento onde se encontra a raça humana, plena de distinções e sabores, onde reina o reggae, o jazz, samba, onde todos são aceites e bem-vindos, com as suas particularidades e os seus defeitos… ninguém é julgado ou aclamado, simplesmente aceite…
Os conflitos humanos postos a nu…. Sem pudores ou hipocrisias… ou melhor, com todos os pudores e hipocrisias que fazem parte da nossa natureza.
Um filme que não vai bem com pipocas, tendo em conta o enorme risco de, a determinada altura, nos sentirmos um burro a roer palha.

Tuesday, October 14, 2008

A Wolf at the Door


Esta noite fui arrancada à serenidade da minha vida presente e puxada para um limbo, onde uma consciência forte e pesada da realidade se apoderou de mim.
Quero com isto dizer que descobri, tardiamente, “A Wolf at the Door”, um vídeo dos radiohead.

De facto, quando penso que lhes será difícil encontrar uma forma mais negra e pesada de fazer música, constato mais uma vez que o seu espírito é uma fonte inesgotável e brilhante, de formas sublimemente depressivas de descrever a realidade.

O vídeo de “A Wolf at the Door”, é uma versão negra do conto “O Capuchinho Vermelho”, "filmada" ao estilo de desenhos animados dos anos 20.

Aqui, existem várias crianças e muitos lobos. É uma história trágica e angustiante que nos remete para uma realidade muito actual.
E todos os lobos me fazem pensar em figuras invisíveis que nos vigiam, que controlam os nossos movimentos, pensamentos, lobos que espreitam em cada esquina com os focinhos aguçados...
Os lobos serão acções, comportamentos, sentimentos sociais de alienação e apatia, que nos oprimem e deprimem.

E é com gemidos de pesar, de gritos menos de revolta que de dor que a voz de Thom Yorke nos conduz pela sua história.

A cor dominante é o negro, não um negro perfeito e líquido, mas um negro mascarrado, pesado, alternado com uns cinzentos e um branco frio, vazio, desolador. O vermelho salpica a imagem de tragédia, um vermelho vivo e brilhante que fere, um vermelho brutal que faz as imagens cheirar a sangue e a morte.
Não tenho dúvidas que a ideia de morte aqui é a ideia do definhar dos valores sociais e subjectivos, o definhar da liberdade, da vontade de escolher, da capacidade de sentir, pensar, agir, ser.

Sabemos quem são aqueles lobos, quem são aqueles lobos para nós. Sentimos que a bizarria daquelas imagens corresponde à bizarria do mundo em que vivemos, em que coisas inacreditáveis acontecem aos olhos de todos, ignoradas e negligenciadas como se fossem apenas banalidades quotidianas.

Todas as imagens do vídeo nos remetem para a submissão e para o domínio: a criança pequena deitada no gigantesco divã vermelho do terapeuta lobo, os lobos que passeiam as crianças como cães, os grupos de meninos e meninas que lêem os livros vermelhos de forma mecânica.

Curiosamente, acho piada à imagem do lobo gordo vestido de pai natal, com um fato bem vermelho, com todas as criancinhas pequenas e indefesas a formar fila à sua frente. Este “Pai Natal Lobo” desenha na minha mente a imagem da Coca-Cola, que se transforma na ideia de capitalismo, que me recorda a sociedade de massas e que, me faz ter consciência da mente padronizada por necessidades e vontades, que todos temos.

Lembro-me ainda da crise financeira que nos faz tremer como se algo fatídico estivesse para acontecer...

E, no fim, permanece por breves momentos, a reconfortante sensação de verdade que está sempre nua e tão solitária!

Wednesday, September 10, 2008

"Alone"


Entrar nos cinemas de São Jorge na noite chuvosa de 5 de Setembro foi uma experiência cómica. Uma festa de Haloween não teria sido tão pitoresca.
O primeiro pensamento que tive foi: “Para o ano tenho que me lembrar de vir mascarada!”.
Salvo raras excepções, homens e mulheres, na maioria jovens na casa dos 20 e 30 anos, trajavam a rigor. Não diria que pareciam vir de dentro de um filme de terror mas, decisivamente pareciam uma comunidade que se junta para um baile de máscaras. Fiquei com uma estranha sensação de divertimento e falta de seriedade ao mesmo tempo.
Pensei: “será que vou ver um filme de terror divertido, tal como no ano passado? Espero que não”.
De facto, não. Este ano o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa (MOTELx) revelou uma organização mais madura e eficaz. A programação também me pareceu mais cuidada. O facto é que, com 9 sessões esgotadas e 6500 espectadores, 30% a mais em relação ao ano passado, o festival não competitivo revelou-se uma aposta ganha.
Por mim, tive uma surpresa bastante “agradável”, se é que se pode dizer isso depois de passar por uma série de tumultuosos sentimentos de medo, angústia e sobressalto.
Para começar, a sala do São Jorge (na qual não me lembro de ter estado alguma vez) era enorme, o tamanho de umas três salas normais, o ecrã simplesmente gigantesco e, como já cheguei em cima da hora e a maior parte dos lugares já estavam ocupados, fiquei num lugar da frente.
A sessão teve início com uma curta-metragem espanhola: “Ya no puedo Camiñar” de Luis Berdejo. Gostei do argumento original e engraçado e, sem dúvida de espírito e ambiente tão pesado e tenebroso como o cinema espanhol deste género pode ser. Áspero e bruto, de uma crueza simples e frontal. Cada vez gosto menos mas tenho que reconhecer que é interessante dentro do género.
“Alone” realizado pela dupla de tailandeses Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom, que foi o filme que escolhi a dedo para marcar presença no MOTELx surpreendeu-me bastante.
Insere-se dentro do género de terror asiático que conheço: uma história de espíritos vingativos, mulheres ou crianças, que voltam para assombrar alguém. Neste caso, é a história de duas gémeas siamesas, sendo que uma delas supostamente morre na adolescência durante a cirurgia de separação.
Já na vida adulta, Pim, a gémea viva que vive na Coreia volta à Tailândia natal quando a mãe adoece. É aqui que começa uma aterrorizante assombração que culmina com a descoberta de um segredo de família terrível e macabro.
Sem ter uma história original, o filme está muito bem conseguido e excelentemente filmado.
A realização usou e abusou dos efeitos psicológicos de tensão obtidos com ângulos, jogos de luz e movimentos de câmara simplesmente perfeitos. Os efeitos sonoros também contribuíram bastante para adensar o ambiente e criar situações bastante pesadas.
Posso dizer que, no que me diz respeito, este é o verdadeiro filme de terror... Para além de mexer com o que desde sempre no meu imaginário significa o mais medonho que existe (o pós morte, as almas vingativas, o espírito maléfico) este filme é rodado de forma a construir as cenas da forma mais assustadora possível, criando uma tensão psicológica quase insuportável.
Saí da sala convencida que, se sofresse do coração estava perdida.
Saltei involuntariamente da cadeira uma dúzia de vezes. Já não conseguia suportar a pressão da expectativa de que algo de terrível fosse aparecer. Pensava “Aquela cara medonha e impossível de encarar vai surgir e eu não vou aguentar“ e, de facto sentia-me tão angustiada que olhava para o ecrã de lado...
Enfim, como uma história mais ou menos previsível e comum em que o fantasma pouco mais faz que assustar aparecendo uma série de vezes (e existindo até a possibilidade de ser apenas produto de uma mente culpada e doente) este filme está muito bem feito e cumpre magnificamente o seu objectivo de aterrorizar.
Fiquei muito satisfeita com o resultado. Finalmente um filme de terror de pôr os cabelos em pé.

Wednesday, July 2, 2008

O Comunismo anda a piscar-me o olho!


Estava muito descansada a ver as notícias da manhã, antes de ir trabalhar, quando uma me chama a atenção: “Número de milionários aumenta 6% e ultrapassa os 10 milhões em 2007”. E parece que é na China e na Índia que surgem cada vez mais... Curioso... Não é na China e na Índia que as populações trabalham que nem loucos, perdão, escravos? E são muito muito pobres, perdão, miseráveis?!
Ora concluo, de forma talvez grosseira e demasiado simplista tavez, que não são os trabalhadores que enriquecem, não os de mais baixo nível e aqueles que mais horas trabalham a menor custo.
Isto pôs-me a cogitar no novo Código de Trabalho: sim, aquela directiva aprovada pela Comissão Europeia que prevê 65 horas de trabalho semanais, 13 por dia.
Parece que isto pretende revigorar a economia, dar-lhe assim um pequeno empurrão. Mas, para não variar muito o curso da história quem tem que empurrar é a grande massa operária.
Quem me conhece sabe que sou avessa a extremos e a política não é excepção: nada de extrema-direita nem de extrema-esquerda. Tenho mesmo questões pessoais pouco favoráveis ao comunismo; não apreendo a ideia e aterroriza-me a prática.
No entanto, também acho que a sociedade capitalista não é de modo nenhum desejável, tenho-a como alienadora de mentes e vontades, construtura de uma ideia de liberdade ilusória, fábrica de andróides humanos programados para consumir tudo o que ela tiver para vender.
É um facto que passo a vida a reclamar, a dizer mal, a criticar. É feitio, se calhar é mau feitio...
Seja como for, não resisto a imaginar a minha vida quando “(in)voluntariamente” tiver que trabalhar treze horas diárias.
Imaginando que entro no trabalho às 9 horas e dando duas horas para o caminho (ida e volta) eis o meu dia: levanto-me às 7 horas da manhã, saio de casa às 8 horas e começo a trabalhar às 9. Passam treze horas de trabalho mais uma hora de almoço e chego a casa às 23 horas. Faço jantar, trato das muitas coisas que temos sempre para fazer em casa e deito-me às 2 horas da manhã. Tenho 5 horas de sono. São portanto, 5 horas livres no meu dia que me chegam... Para dormir.
Ora, para mim, ter um fim-de-semana ou feriado para passar com a família, amigos ou namorado é um luxo, uma verdadeira miragem desde que entrei no mercado de trabalho. Tudo bem, aceitei as condições. No entanto, viver para trabalhar, comer e dormir pouco e mal, já me parece algo mais digno de queixa.
Ter filhos com estas condições que nos querem impor nem pensar, só se for para os colocar num orfanato onde, certamente alguém terá mais tempo disponível para eles. Quanto aos amigos teremos que nos resignar com os colegas de trabalho que serão as únicas pessoas que veremos ao longo do dia e dos próximos anos. Vida pessoal e afectiva, mais vale não ter para nos pouparmos do desgosto de a ver arruinada.
É este o futuro que queremos para nós? São estas as propostas de sacrifício para reabilitar a nossa economia?
Claro que nos contrapõem que existem vantagens na “flexibilidade” dos horários de trabalho. Podemos ter uma semana de trabalho com um horário mais leve. Que maravilha! Talvez o patrão me dê uma segunda-feira ou me deixe entrar mais tarde à terça se lhe der jeito. Assim posso ir ao banco ou à farmácia tratar “das minhas voltas”. Sim, pensando bem, são dias que dão imenso jeito. Para quê ir à praia, ao teatro, visitar um museu ao domingo (que é grátis), namorar um pouco em Sintra quando posso estar o fim-de-semana todo a trabalhar das 9 às 22 horas?
Sim porque ninguém em seu perfeito juízo e que respeite a inteligência do próximo, me vai convencer que a flexibilidade de horários e a gestão do “banco de horas” vai ser feito de comum acordo entre patrão e empregado. Cabe na cabeça de alguém que a operadora de caixa do Continente vai negociar horários com Belmiro de Azevedo e é ele quem dá o jeitinho?!
O que não vai funcionar nesta “neo-escravatura” que nos querem impor resulta do facto de o povo já não ser tão ignorante e pouco critico como no tempo do arranque industrial. Os “modernos proletários” já conhecem os seus direitos, são seres pensantes e potencialmente muito mais perigosos que os de outrora.
Se o Comunismo voltar (e estou em crer que sim, embora a ideia me cause alguma apreensão pelo que nos diz do estado do país) talvez seja mais difícil de controlar do que foi há 30 anos. A classe média cada vez mais empobrecida pode ser uma massa estupidificada e estandardizada mas tenho em mim a esperança que não vai ser “voluntariamente escravizada” por um capitalismo galopante e irracional do ponto de vista social.